Em resumo
O escaravelho vermelho (Rhynchophorus ferrugineus) mata palmeiras por dentro e os sinais só aparecem quando a praga já está instalada. Uma palmeira tratada de forma preventiva, com aplicações regulares entre março e novembro, raramente é atacada. Uma palmeira com a coroa caída normalmente já não se salva e tem de ser abatida e destruída, por obrigação legal.
O que é o escaravelho vermelho
O escaravelho vermelho das palmeiras, Rhynchophorus ferrugineus, é um gorgulho de dois a cinco centímetros, castanho-avermelhado, com uma tromba comprida. Veio do sudeste asiático, espalhou-se pelo Médio Oriente e pelo Mediterrâneo com o comércio de palmeiras adultas e foi detetado em Portugal em 2007, precisamente no Algarve. Desde então matou milhares de palmeiras entre Lagos e Vila Real de Santo António, muitas delas com cinquenta ou cem anos.
Muita gente chama-lhe bicho das palmeiras, escaravelho das palmeiras ou gorgulho da palmeira. É o mesmo inseto. A palavra inglesa que vai encontrar nas pesquisas é red palm weevil.
O que torna esta praga tão destrutiva não é o adulto, é a larva. A fêmea põe entre duzentos e trezentos ovos nas feridas da palmeira: cortes de poda recentes, axilas das folhas, fendas no tronco. As larvas, brancas e gordas, com até cinco centímetros, escavam túneis no tecido mole da coroa e do topo do tronco durante dois a três meses. Depois fazem um casulo de fibra, transformam-se em adultos e voltam a pôr ovos, muitas vezes na mesma palmeira. Numa única Phoenix canariensis podem viver centenas de larvas ao mesmo tempo.
O adulto voa bem, vários quilómetros se for preciso, e é atraído pelo cheiro de tecido vegetal cortado ou em fermentação. É por isso que uma palmeira podada no verão sem proteção é um alvo, e é por isso que uma palmeira morta deixada no jardim contamina as dos vizinhos.
Que palmeiras ataca
A palmeira das Canárias, Phoenix canariensis, é de longe a preferida. É a palmeira grande e larga que se vê nas avenidas de Portimão e Albufeira, nas quintas de Silves e em metade das moradias de Carvoeiro. A tamareira, Phoenix dactylifera, é a segunda mais atacada. A Washingtonia, mais fina e alta, é atacada com menos frequência mas não está livre, e temos visto cada vez mais casos. Chamaerops humilis, a palmeira anã do nosso mato, e Trachycarpus são raramente atacadas pelo escaravelho, mas têm o seu próprio inimigo, a Paysandisia archon, de que falamos mais abaixo.
Sinais de que a palmeira está infetada
O problema do escaravelho é que trabalha escondido. Nos primeiros meses a palmeira parece saudável por fora enquanto as larvas comem o interior da coroa. Quando os sinais aparecem, a praga já lá está há tempo. Mesmo assim, há sinais a que vale a pena estar atento, e quanto mais cedo os apanhar, maior a hipótese de salvar a palmeira.
- Folhas centrais (as mais novas, no meio da coroa) tortas, caídas ou com aspeto de terem sido cortadas à tesoura
- Coroa assimétrica, com um lado mais baixo, ou com aspeto despenteado
- Furos do tamanho de um dedo na base das folhas ou no tronco, muitas vezes com serrim húmido e um líquido castanho a escorrer
- Casulos de fibra castanha, parecidos com um charuto pequeno, caídos ao pé da palmeira ou presos nas axilas das folhas
- Cheiro a fermentado, semelhante a fruta podre, perto da coroa
- Folhas que se soltam com a mão, ou som oco ao bater no tronco
- Adultos à vista, sobretudo ao fim da tarde, ou larvas quando se corta uma folha
Numa fase avançada, a coroa inteira inclina-se, as folhas ficam todas secas e, por fim, a cabeça da palmeira cai. Uma coroa de Phoenix canariensis pesa várias centenas de quilos. Uma palmeira nesse estado junto a uma casa, a um caminho ou a uma piscina é um perigo real.
Se vir um ou dois destes sinais, tire fotografias de perto e mande-nos por WhatsApp. Conseguimos quase sempre dizer pelas imagens se é escaravelho, Paysandisia, falta de água ou simplesmente uma poda mal feita.
Qual é o tratamento para o escaravelho da palmeira
Há três abordagens, e muitas vezes combinam-se. O que escolher depende da espécie, da altura, de haver ou não sintomas e de quantas palmeiras há no local.
1. Pulverização da coroa
É o método mais comum na prevenção. Um inseticida homologado é aplicado em toda a coroa, com atenção especial às axilas das folhas e ao centro, onde o escaravelho põe os ovos. A aplicação repete-se a cada trinta a quarenta e cinco dias durante a época de voo, que no Algarve vai de março a novembro e, em anos quentes, não para. Fora dessa época chega uma ou duas aplicações de manutenção.
A pulverização é eficaz e relativamente barata, mas exige acesso à coroa (em palmeiras altas, plataforma ou subida por corda) e cuidado com o vento e com o que está à volta: piscinas, hortas, animais.
2. Endoterapia (injeção no tronco)
Na endoterapia o produto é injetado diretamente no tronco, por pequenos furos, e a própria seiva o distribui pela coroa. Não há deriva, não há cheiro e a palmeira fica protegida por dentro durante vários meses. Duas a três aplicações por ano costumam chegar. É o método que preferimos em jardins com crianças e animais, junto a piscinas e em palmeiras muito altas onde pulverizar bem é difícil.
O inconveniente é o preço por aplicação, mais alto do que a pulverização, e os furos, que têm de ser feitos com critério para não enfraquecer o tronco.
3. Nemátodes e outros métodos biológicos
Os nemátodes entomopatogénicos, sobretudo Steinernema carpocapsae, são vermes microscópicos que procuram as larvas do escaravelho e as matam por dentro. Aplicam-se com água na coroa, duas a três vezes na primavera e outra tanto no outono, e precisam de humidade para funcionar. São uma boa opção biológica, compatível com agricultura biológica e com hortas ao lado, mas exigem disciplina nas aplicações. O fungo Beauveria bassiana é outra opção biológica com resultados interessantes.
4. Armadilhas de feromona
As armadilhas com feromona de agregação atraem os adultos e servem sobretudo para saber se há escaravelho na zona e quanto. Sozinhas não protegem uma palmeira, e colocadas demasiado perto podem até atrair adultos para o jardim. Usam-se a alguma distância das palmeiras a proteger e como complemento, nunca como tratamento único.
Tratamento curativo: a palmeira ainda se salva?
Depende de onde as larvas chegaram. Numa infeção inicial, em que só as folhas novas estão afetadas e o ponto de crescimento no centro da coroa está vivo, há boas hipóteses. O tratamento curativo passa por abrir a zona atacada, retirar as folhas e o tecido destruído, remover as larvas e casulos que se encontrem, e aplicar inseticida sistémico e, se possível, endoterapia. Chamamos a isto cirurgia da palmeira. Fica com uma coroa mais pequena durante um ou dois anos, mas recupera.
Se a coroa já caiu, se o tronco está oco ou se o ponto de crescimento foi comido, não há tratamento que a traga de volta. Nesse caso o que se faz é abater e destruir a palmeira depressa, para proteger as vizinhas.
Dizemos sempre a verdade sobre isto. Já vimos muitos proprietários a gastar dinheiro em tratamentos numa palmeira que já estava perdida, e outros a desistir de uma palmeira que ainda tinha salvação. Uma visita, muitas vezes com subida à coroa, resolve a dúvida.
Quando tratar e com que frequência
Uma palmeira nunca tratada e sem sintomas pode começar o plano em qualquer altura do ano. Uma palmeira com sintomas trata-se já, independentemente do mês.
A poda e o escaravelho
A maior parte das infeções que vemos começam numa poda. O corte de uma folha verde deixa uma ferida grande, húmida e cheirosa, e é exatamente aí que a fêmea põe os ovos. Por isso a limpeza de palmeiras deve ser feita entre novembro e fevereiro, quando o escaravelho está menos ativo, deve cortar apenas folhas secas ou já a secar, e os cortes devem ser protegidos com um produto selante ou com inseticida logo depois.
O erro mais comum é a chamada poda em abacaxi exagerada ou, pior, despir a palmeira e deixar só um tufo de folhas verticais. Além de feia, essa poda enfraquece a palmeira e expõe o centro da coroa. Explicamos tudo isto com mais detalhe no guia sobre quando e como podar palmeiras.
O escaravelho é perigoso para pessoas e animais?
Não. O escaravelho vermelho não pica, não morde, não é venenoso e não transmite doenças. Pode pegar-lhe na mão sem problema. O perigo é a palmeira que ele deixa: um tronco oco e uma coroa de centenas de quilos que cai sem aviso. É por isso que as palmeiras mortas em zonas públicas e junto a casas são tratadas como uma questão de segurança e não só de jardinagem.
O que a lei obriga
O escaravelho vermelho é uma praga de controlo obrigatório em Portugal. Na prática isto significa que o proprietário de uma palmeira tem o dever de a vigiar, de a tratar quando é necessário e de abater e destruir as palmeiras mortas ou irrecuperáveis, para que não funcionem como foco de infeção para as palmeiras à volta. A Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) define as regras, e várias câmaras do Algarve, incluindo Silves, Lagoa, Portimão e Albufeira, notificam proprietários com palmeiras mortas e podem avançar com o abate a custo do proprietário se nada for feito.
A destruição correta de uma palmeira infetada não é cortar e deixar ao canto do terreno. O material da coroa e do topo do tronco, onde estão as larvas e os casulos, tem de ser triturado finamente, queimado onde seja permitido ou levado para um local de tratamento autorizado. Deixar o tronco inteiro no chão durante meses é a melhor forma de garantir que os adultos que lá estão voem para a palmeira do vizinho.
Posso tratar eu próprio?
Pode, com limites. Os produtos realmente eficazes contra o escaravelho são de uso profissional, com venda restrita a quem tem o cartão de aplicador de produtos fitofarmacêuticos. Os produtos de venda livre em lojas de jardinagem têm concentrações baixas, não chegam ao interior da coroa onde estão as larvas e dão uma falsa sensação de segurança. Nos casos de palmeiras perdidas que vamos ver, há quase sempre uma história de meses de tratamentos caseiros.
O que pode e deve fazer em casa: olhar para a coroa das suas palmeiras todos os meses, de preferência com binóculos se forem altas, não podar no verão, retirar e destruir folhas e casulos suspeitos, e avisar um profissional ao primeiro sinal. Os nemátodes são a opção biológica que um particular consegue comprar e aplicar, desde que respeite as doses e as datas.
Quanto custa o tratamento de palmeiras
O preço do tratamento preventivo depende do número de palmeiras, da altura, do método e do número de aplicações por ano. Uma única Phoenix de porte médio tratada por pulverização ao longo do ano custa uma fração do que custa abater uma palmeira morta e comprar e plantar uma nova. Num condomínio ou aldeamento com dezenas de palmeiras, o preço por palmeira baixa bastante. O tratamento curativo é mais caro, porque exige subida à coroa, cirurgia e várias visitas.
Não damos preços sem ver a palmeira, pelo menos em fotografia. Mande-nos imagens pelo WhatsApp com o número de palmeiras e o concelho, e recebe orçamento no próprio dia.
Paysandisia archon: o outro inimigo
A Paysandisia archon é uma borboleta grande, castanha com asas traseiras laranja e pretas, vinda da América do Sul. As suas lagartas escavam galerias no tronco e na base das folhas, sobretudo de Chamaerops humilis, Trachycarpus, Phoenix e Washingtonia. Os sinais são diferentes dos do escaravelho: folhas novas com furos alinhados em leque, como se tivessem sido perfuradas quando ainda estavam fechadas, serrim no tronco e casulos de fibra alongados. O tratamento é parecido, com nemátodes e inseticidas sistémicos, e a vigilância é a mesma.
Que palmeiras plantar no Algarve
Se vai plantar palmeiras novas, pense duas vezes antes de escolher uma Phoenix canariensis, por muito bonita que seja. Washingtonia robusta e filifera, Chamaerops humilis, Trachycarpus fortunei, Butia e Syagrus são opções menos atacadas, embora nenhuma seja imune. Compre sempre em viveiros com passaporte fitossanitário e evite palmeiras adultas de origem desconhecida, que foi exatamente assim que a praga entrou na Europa.
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